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A despedida mística de Raul Seixas

Lançado em 22 de agosto de 1988, A Pedra do Gênesis marca o último capítulo da trajetória solo de Raul Seixas, o eterno Maluco Beleza. Gravado entre fevereiro e agosto daquele ano, em estúdios mais simples de São Paulo e São Bernardo do Campo, o disco carrega um clima de urgência: é, ao mesmo tempo, despedida e tentativa de reencontro com a essência que consagrou Raul nos anos 1970.

Mais do que um álbum, o trabalho soa como um retorno às origens. Aqui, Raul revisita a figura do místico, do profeta e do questionador que marcou sua fase mais icônica. Só que, dessa vez, esse olhar vem atravessado por um tom mais cru e confessional, reflexo de um período pessoal e artístico delicado.

Bastidores e gravação

Produzido em meio a limitações e incertezas, o disco reúne músicas inéditas e faixas que haviam sido barradas anteriormente pela censura, como “Check-up”, “Fazendo o Que o Diabo Gosta” e “Não Quero Mais Andar na Contramão (No No Song)”. Liberadas apenas depois, elas ajudam a dar ao álbum um caráter quase “resgatado”, como se fossem peças que finalmente encontraram seu lugar.

A capa reforça esse imaginário: uma foto de 1974 em que Raul aparece como um mago — símbolo perfeito para esse retorno ao universo místico que sempre permeou sua obra.

Um som entre o místico e o íntimo

Musicalmente, A Pedra do Gênesis se afasta do rock mais direto dos trabalhos anteriores e mergulha em composições que transitam entre o espiritual e o pessoal,  especialmente em um momento em que Raul tentava retomar os palcos ao lado de Marcelo Nova.

A faixa-título abre o disco com ecos claros de clássicos como “Gîtâ” e “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”, trazendo aquele Raul filósofo que os fãs reconhecem de cara. Em seguida, “A Lei” resgata o espírito libertário da Sociedade Alternativa, com uma pegada mais densa e orquestrada.

Mas é nas entrelinhas que o álbum ganha força. Canções como “Cavalos Calados” expõem um Raul mais vulnerável, encarando a própria finitude com uma lucidez que chega a arrepiar. Já “Não Quero Mais Andar na Contramão (No No Song)” carrega um tom quase irônico, mas deixa escapar o cansaço físico e emocional do artista.

Recepção e legado

Apesar de bem recebido pela crítica, o álbum acabou passando quase despercebido pelo grande público. A divulgação limitada da gravadora e a ausência de uma turnê estruturada pesaram.

Ainda assim, reduzir A Pedra do Gênesis a um “disco esquecido” seria injusto. Para quem acompanha a trajetória do Maluco Beleza, ele funciona como um registro potente e sincero, um retrato de um artista que, mesmo fragilizado, nunca deixou de provocar, refletir e cantar suas verdades.

No fim das contas, é um álbum que pede escuta atenta. Porque, mais do que revisitar o passado, Raul parece deixar pistas — quase como um último recado — sobre tudo aquilo que sempre acreditou.