O álbum que marcou o desgaste da formação original e aproximou a banda de um som mais pop
Lançado em 1980, Unmasked ocupa um lugar curioso na discografia do Kiss. O oitavo álbum de estúdio da banda chegou em um momento delicado: o grupo ainda colhia os frutos comerciais do sucesso gigantesco da segunda metade dos anos 1970, mas internamente já enfrentava desgaste criativo, conflitos pessoais e mudanças inevitáveis.
Mais do que um disco, Unmasked representa uma transição. Foi o último álbum ligado à formação original do Kiss e também um símbolo de uma banda que tentava sobreviver em meio à queda de popularidade nos Estados Unidos, à pressão da indústria musical e às próprias contradições.
Um Kiss distante do hard rock
Depois do sucesso de Dynasty (1979), que já havia aproximado o grupo de sonoridades mais comerciais e até flertado com a disco music em faixas como “I Was Made for Lovin’ You”, o Kiss voltou ao estúdio Record Plant, em Nova York, disposto a gravar seu próximo trabalho.
Na produção, novamente estava Vini Poncia, responsável por suavizar ainda mais o som da banda. O resultado foi um álbum extremamente polido, melódico e radiofônico, muito distante do hard rock agressivo e teatral que havia transformado o Kiss em um fenômeno mundial durante os anos 1970.
As guitarras perderam peso, os refrões ganharam destaque e as composições passaram a apostar em uma estética mais acessível. Para parte do público, aquilo soava como evolução; para outra, parecia descaracterização.
Não demorou para Unmasked se tornar um dos discos mais decisivos da carreira da banda.
Crise interna
Se musicalmente o Kiss vivia uma transformação, nos bastidores a situação era ainda mais complicada.
O baterista Peter Criss já demonstrava desgaste desde a turnê de Dynasty. Desmotivado, pouco participativo e mergulhado em problemas pessoais e dependência química, Criss praticamente havia se desconectado da banda. Seu desejo de seguir carreira solo também já era conhecido pelos demais integrantes.
Em sua autobiografia Uma Vida Sem Máscaras (Belas Letras, 2015), Paul Stanley relembrou o impacto daquele momento:
“Era difícil visualizar a banda sem nós quatro. Problemáticos ou não, éramos os quatro mosqueteiros.”
A frase resume bem o tamanho da ruptura que se aproximava. Durante anos, o Kiss vendeu ao público a ideia de uma unidade quase mitológica entre seus quatro integrantes originais. Ver essa estrutura ruir significava questionar a própria identidade da banda.
Embora Unmasked tenha sido lançado oficialmente como um álbum da formação clássica, Peter Criss praticamente não participou das gravações.
Quem assumiu as baterias foi Anton Fig, músico experiente que já havia colaborado com o grupo anteriormente. A presença de Criss no disco acabou sendo muito mais simbólica do que prática.
Ainda assim, o Kiss manteve a imagem da formação original na divulgação do álbum, talvez numa tentativa de preservar a ilusão de estabilidade diante do público.
Pouco tempo depois, a separação se tornaria inevitável.
A capa em quadrinhos
Se o conteúdo musical dividiu opiniões, a identidade visual de Unmasked se tornou uma das mais lembradas da carreira do Kiss.
A capa foi criada em formato de história em quadrinhos e mostra um paparazzi tentando fotografar os integrantes sem maquiagem. Quando finalmente consegue registrar seus rostos, a revelação é irônica: mesmo sem maquiagem, os membros da banda continuam exatamente iguais aos personagens que interpretavam no palco.
O conceito dialogava diretamente com o fascínio que existia em torno das identidades secretas do grupo, algo que alimentou o imaginário dos fãs durante toda a década de 1970.
A turnê de Unmasked
Com a popularidade em declínio nos Estados Unidos, o Kiss passou a concentrar esforços em mercados internacionais. A turnê de Unmasked teve forte presença na Europa e na Austrália, países onde a banda ainda mantinha enorme apelo popular.
Foi também nesse período que o grupo começou a dar sinais visuais de exagero. Os figurinos brilhantes, carregados de pedras falsas e elementos extravagantes, reforçavam a ideia de um espetáculo quase circense — definição que o próprio Gene Simmons utilizaria posteriormente ao falar daquela fase.
Na Europa, os shows tiveram abertura do Iron Maiden, que ainda dava seus primeiros passos rumo ao estrelato mundial. O contraste entre as duas bandas acabaria simbolizando uma mudança geracional dentro do rock pesado: enquanto o Kiss suavizava seu som, o heavy metal britânico ganhava força e agressividade.
Foi também durante essa turnê que o público conheceu o novo baterista do grupo, Eric Carr, escolhido para substituir Peter Criss. Sua estreia marcou oficialmente o fim da formação original.
Um álbum incompreendido ou apenas fora de época?
Ao longo dos anos, Unmasked passou por uma espécie de reavaliação entre fãs e críticos. Embora ainda seja visto por muitos como um dos trabalhos mais fracos do Kiss em termos de identidade hard rock, o álbum também conquistou admiradores que valorizam sua construção melódica, os refrões marcantes e a produção sofisticada.
Faixas como “Shandi”, por exemplo, ganharam status cult dentro da discografia da banda, especialmente fora dos Estados Unidos.
Hoje, Unmasked pode ser entendido menos como um erro e mais como o retrato de uma banda tentando sobreviver às mudanças do mercado musical e às próprias crises internas. O disco documenta um momento em que o Kiss deixou de ser apenas um grupo de hard rock para se tornar uma marca em busca de reinvenção.
E talvez seja justamente isso que faça de Unmasked um álbum tão fascinante: ele registra, em tempo real, o instante em que um dos maiores nomes do rock percebeu que nunca mais seria o mesmo.