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E o Vento Levou: por que esse clássico ainda é impossível de ignorar?

Poucos filmes conseguiram ocupar um espaço tão grande na história do cinema quanto E o Vento Levou. Lançado em 1939, o longa dirigido por Victor Fleming, George Cukor e Sam Wood se tornou um dos grandes clássicos de Hollywood e, décadas depois, continua despertando admiração, discussões e também controvérsias.

Baseado no romance de Margaret Mitchell, o filme acompanha Scarlett O’Hara, interpretada por Vivien Leigh, uma jovem da Geórgia que vê sua vida mudar completamente com a chegada da Guerra de Secessão. Entre o amor não correspondido por Ashley Wilkes, vivido por Leslie Howard, e a relação turbulenta com Rhett Butler, personagem de Clark Gable, Scarlett precisa lidar com a transformação de tudo o que conhecia.

Mas o que faz E o Vento Levou continuar tão presente quando tantos outros filmes de sua época ficaram restritos aos livros de história do cinema?

Os bastidores de E o Vento Levou 

Antes mesmo de chegar às telas, E o Vento Levou já era tratado como uma produção gigantesca. A escolha de Scarlett O’Hara se transformou em um dos grandes desafios do projeto: mais de 1.400 mulheres foram entrevistadas até que Vivien Leigh fosse escolhida para o papel.

A produção também passou por mudanças importantes nos bastidores. George Cukor, inicialmente responsável pela direção, deixou o projeto pouco depois do início das filmagens. Victor Fleming assumiu a maior parte do trabalho, enquanto Sam Wood também participou da direção durante um período em que Fleming precisou se afastar.

O roteiro, baseado no livro de Margaret Mitchell, também passou por diferentes versões e revisões até chegar à duração considerada adequada para o filme.

Todo esse processo ajuda a explicar a dimensão de E o Vento Levou. Não era apenas mais uma produção de Hollywood.

Scarlett O’Hara é o verdadeiro centro da história

Apesar do romance ser uma parte importante da trama, é Scarlett quem sustenta o filme. E boa parte dessa força está na interpretação de Vivien Leigh.

No começo, Scarlett aparece como uma jovem mimada, acostumada a ter atenção e a conseguir o que deseja. Conforme a guerra transforma sua vida e destrói o mundo que ela conhecia, porém, a personagem também se transforma.

Scarlett deixa de ser apenas a jovem preocupada com seus próprios desejos e passa a enfrentar perdas, dificuldades e responsabilidades que nunca imaginou ter. Sua determinação para sobreviver revela uma personagem cheia de contradições, capaz de tomar decisões questionáveis, mas também de demonstrar uma força que não parecia existir no início da história.

É justamente essa complexidade que faz de Scarlett uma das personagens mais marcantes do cinema clássico. Ela está longe de ser perfeita ou mesmo fácil de admirar, mas é difícil assistir ao filme sem acompanhar de perto cada uma de suas escolhas.

A atuação de Vivien Leigh foi fundamental para construir essa personagem. O Oscar de Melhor Atriz, conquistado por ela em 1940, ajudou a consolidar Scarlett como uma das figuras mais reconhecíveis da história de Hollywood.

Um filme que fez história no Oscar

O reconhecimento veio também pela Academia. E o Vento Levou recebeu 13 indicações ao Oscar de 1940 e venceu oito categorias, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz para Vivien Leigh.

Hattie McDaniel também entrou para a história ao vencer o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua interpretação de Mammy, tornando-se a primeira mulher afro-americana a conquistar o prêmio.

O sucesso comercial foi igualmente impressionante. O filme se tornou a maior bilheteria de sua época e, considerando os ajustes pela inflação, continua aparecendo entre os filmes de maior sucesso da história.

Um clássico que também precisa ser visto com olhar crítico

É impossível falar de E o Vento Levou atualmente sem mencionar as controvérsias que acompanham sua representação do Sul dos Estados Unidos.

A história apresenta uma visão romantizada do chamado Velho Sul e de uma sociedade estruturada pela escravidão. Por isso, o filme é frequentemente discutido também sob uma perspectiva histórica e racial, especialmente pela forma como retrata esse período.

Isso não apaga sua importância para a história do cinema, mas muda a maneira como ele pode ser assistido hoje.

Revisitar um clássico não significa necessariamente aceitar tudo o que ele apresenta. Também significa entender o contexto em que foi produzido, reconhecer suas escolhas e perceber como nossa própria relação com essas imagens mudou ao longo do tempo.

Por que E o Vento Levou continua relevante?

E o Vento Levou é um daqueles filmes que permitem observar diferentes momentos da história de Hollywood ao mesmo tempo. Ele representa o gigantismo das grandes produções clássicas, o poder das estrelas, a força dos estúdios e a capacidade do cinema de transformar personagens em ícones.

Ao mesmo tempo, também revela os limites e as visões históricas de sua época.

Talvez seja justamente por isso que o filme continue impossível de ignorar. Mais de oito décadas depois de sua estreia, E o Vento Levou ainda provoca conversas sobre cinema, romance, história e representação.

E, para um clássico, continuar sendo discutido talvez seja uma das formas mais interessantes de permanecer vivo.