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Women and Children First: o lado sombrio do Van Halen

Tem álbuns que vivem na sombra dos irmãos mais famosos, e é exatamente esse o destino de Women and Children First, o terceiro trabalho de estúdio do Van Halen. Lançado em 26 de março de 1980 pela Warner Bros. Records, ele chegou depois de dois discos que já tinham redefinido o hard rock americano e talvez por isso nunca tenha recebido o mesmo brilho de “Van Halen” ou “Van Halen II”. Mas quem escuta com atenção percebe: é aqui que a banda começa a mostrar um lado mais sombrio e mais denso.

O primeiro disco sem covers

Um detalhe que costuma passar batido: Women and Children First foi o primeiro álbum do Van Halen sem nenhuma faixa cover. Até então, a banda intercalava composições próprias com releituras, o próprio hit “You Really Got Me”, dos Kinks, tinha sido decisivo para colocar o grupo no mapa. A partir desse disco, produzido por Ted Templeman e com a engenharia de som de Donn Landee, dupla que já vinha moldando o som da banda desde o início, o Van Halen assume de vez a própria identidade sonora.

Não à toa, o crítico Stephen Thomas Erlewine, da AllMusic, descreveu o álbum como o momento em que o grupo “começou a ficar mais pesado, tanto sonoramente quanto, em menor grau, tematicamente”. 

Aquele riff de abertura não é bem o que parece

“And the Cradle Will Rock…”, faixa que abre o disco e também foi escolhida como primeiro single, esconde um dos truques sonoros mais curiosos da carreira de Eddie Van Halen. O que soa como uma guitarra distorcida é, na verdade, um piano elétrico Wurlitzer passado por um efeito de deslocamento de fase e tocado através do lendário amplificador Marshall Plexi 1960, de 100 watts. É um daqueles detalhes que só reforçam a fama de Eddie como um inventor de sons, sempre um passo à frente do que se esperava de um guitarrista de hard rock.

O single, aliás, não repetiu o sucesso de “Dance the Night Away” nem de “You Really Got Me”, mas isso não impediu o álbum de bater platina em cerca de um ano e de consolidar de vez o Van Halen como uma das principais atrações de shows da época.

Gravado rápido, do jeito Van Halen

Seguindo a tradição dos dois discos anteriores, Women and Children First foi gravado no Sunset Studios, em Hollywood, em pouco mais de duas semanas, uma velocidade que hoje soa quase inimaginável, mas que era a marca registrada da banda naquele início de carreira. Dessa vez, porém, houve mais overdubs em estúdio e uma presença menor dos vocais de apoio.

Parte disso se explica pela origem de duas faixas: “In a Simple Rhyme” e “Take Your Whiskey Home” tinham sido escritas e gravadas seis anos antes, ainda no Cherokee Studios, período que antecede a entrada de Michael Anthony na banda. Já “Fools” e “Loss of Control” também não eram exatamente novidades, vinham sendo tocadas ao vivo desde 1975 e 1977, respectivamente, antes de ganharem suas versões definitivas em estúdio.

A chuva que entrou na música por acaso

Um dos momentos mais bonitos do disco é “Could This Be Magic?”, que traz o único vocal de apoio feminino já gravado em uma música do Van Halen: Nicolette Larson divide alguns refrões com a banda. E o som de chuva ao fundo? Não é um efeito programado, estava chovendo de verdade do lado de fora do estúdio, e a banda resolveu captar aquilo em estéreo, usando dois microfones Neumann KM84, e incorporar o som direto à faixa. É o tipo de acaso que vira parte da história de um álbum.

O disco fecha com “Growth”, uma pequena peça instrumental encaixada ao final de “In a Simple Rhyme”. Nas versões originais em vinil e fita cassete ela terminava em fade out; no CD, ganhou um final abrupto, em volume máximo. Curiosamente, a ideia de usá-la como abertura do disco seguinte, Fair Warning, chegou a ser cogitada, mas acabou descartada, ainda que “Growth” tenha se tornado praticamente um ritual nos shows da era Roth, quase sempre usada para abrir os bis.

Recepção da crítica e legado

As resenhas da época foram, em geral, favoráveis. David Fricke, da Rolling Stone, destacou “Romeo Delight”, “Everybody Wants Some!!” e “Loss of Control” como verdadeiras “obras de arte de alto volume”, elogiando o grupo como “músicos excepcionalmente bons”. Tanto Fricke quanto Robert Christgau compararam a guitarra de Eddie Van Halen ao trabalho de Jimi Hendrix — Christgau, que deu nota B ao disco, resumiu bem: “ele não é um clone — é mais rápido, mais frio, mais estruturado”.

Décadas depois, Erlewine voltaria a resenhar o álbum classificando-o como um trabalho “maduro, ou pelo menos… um pouco sério”, com “um coração um tanto sombrio pulsando” por baixo da superfície. O reconhecimento também veio em listas de peso: a Kerrang! colocou o disco na 30ª posição entre os 100 maiores álbuns de heavy metal de todos os tempos, enquanto a Rolling Stone o posicionou em 36º lugar entre os maiores álbuns de metal já gravados.

Women and Children First talvez nunca vá roubar os holofotes dos discos de estreia do Van Halen, mas é exatamente essa vontade de arriscar, menos covers, mais overdubs, sons construídos por acidente e engenhosidade que faz dele um capítulo essencial para entender como a banda deixou de ser só uma sensação e virou uma referência.